Singela Homenagem ao Millôr

Veja também: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mill%C3%B4r_Fernandes

 

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O Anjo das Pernas Tortas

A um passe de Didi, Garrincha avança

Colado o couro aos pés, o olhar atento

Dribla um, dribla dois, depois descansa

Como a medir o lance do momento.

 

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança

Mais rápido que o próprio pensamento

Dribla mais um, mais dois; a bola trança

Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

 

Num só transporte a multidão contrita

Em ato de morte se levanta e grita

Seu uníssono canto de esperança.

 

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!

É pura imagem: um G que chuta um o

Dentro da meta, um 1. É pura dança!

 

Vinícius de Moraes

Mário Lago

Hoje o grande ator, poeta, escritor, compositor e músico Mário Lago completaria 100 anos. Muitas foram as homenagens na mídia a este grande homem.

Aqui também deixo uma singela homenagem, com um poema e uma música!

Valeu Mário!

Três coisas
Pra mim três coisas no mundo
Valem bem mais do que o resto.
Pra defender qualquer delas
Eu mostro o quanto que presto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o grito, é o passo, é o gesto.
O gesto é a voz do proibido
Escritasem deixar traço.
Chama, ordena, empurra, assusta.
Vai longe com pouco espaço.
É o passo, é o gesto, é o grito,
É o gesto, é o grito, é o passo.
O passo começa o vôo
Que vai do chão pro infinito.
Pra mim, que amo estrada aberta,
Quem prende o passo é maldito.
É o grito, é o passo, é o gesto,
É o passo, é o gesto, é o grito.
O grito explode o protesto
Se a boca não tem espaço
Que guarde o que há pra ser dito
No grito, no passo e gesto.
É o gesto, é o grito, é o passo,
É o passo, é o gesto, é o grito.
Mário Lago

Cruz e Sousa

Este ano comemoramos os 150 anos do nascimento de Cruz e Sousa, nosso grande poeta.

João da Cruz e Sousa, nasceu em 24 de novembro de 1861 na cidade de Desterro, hoje Florianópolis.

Teve sua educação garantida  pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e sua esposa, que o acolheram como o filho que não conseguiram ter. O referido marechal havia alforriado os pais do escritor, negros escravos. Educado na melhor escola secundária da região, teve que abandonar os estudos e ir trabalhar, face ao falecimento de seus protetores. Vítima de perseguições raciais, foi duramente discriminado, inclusive quando foi proibido de assumir o cargo de promotor público em Laguna – SC. Em 1890 transferiu-se para o Rio de Janeiro, ocasião em que entrou em contato com a poesia simbolista francesa e seus admiradores cariocas.

Na juventude foi caixeiro, professor e jornalista. Lutou contra o racismo da época em que viveu. Foi um grande poeta, sendo o maior do Movimento Simbolista do Brasil.

Faleceu no ano 1898, em Minas Gerais, vítima de tuberculose.

Livre!
Livre! Ser livre da materia escrava,

Arrancar os grilhões que nos flagelam

E livre, penetrar nos Dons que selam

A alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

 

Livre da humana, da terrestre bava

Dos corações daninhos que regelam

Quando os nossos sentidos se rebelam

Contra a Infâmia bifronte que deprava.

 

Livre! bem livre para andar mais puro,

Mais junto à Natureza e mais seguro

Do seu amor, de todas as justiças.

 

Livre! para sentir a Natureza,

Para gozar, na universal Grandeza,

Fecundas e arcangélicas preguiças.

Cruz e Sousa (Últimos Sonetos)

O Girassol – Vinícius de Moraes

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

– Vamos brincar de carrossel, pessoal?

– “Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor”.

– Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
– Besouro é muito pesado!
– Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!
– Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

– “Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol”.
E o girassol vai
girando dia afora…
O girassol é o carrossel das abelhas.

Vinícius de Moraes

Recomendo o livro Arca de Noé de Vinícius, principalmente para ler às crianças!

Grande felicidade!

Esta semana fiquei muito feliz,  quando minha filha de nove anos chegou da escola com um livro da biblioteca do Vinícius de Moraes: A Arca de Noé! Como sou amante da poesia e de gostar muito de ler fiquei muito orgulhosa deste ato.

Desde que meus filhos nasceram, sempre lia livros infantis na cama com eles antes de dormir. Tenho certeza que este hábito fez com que meus dois filhos atualmente sejam amantes da leitura. Além do conhecimento, a importância de gostar de ler é ter a possibilidade de abrir a mente para a imaginação.

Quando criança não tinha acesso a livros. Só na adolecência descobri a biblioteca pública de minha cidade. A leitura me transformou numa pessoa melhor!

Amigos – Vinícius de Moraes

AMIGOS

“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.

Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.

Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. É delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí.

E me envergonho, porque essa minha prece é em síntese, dirigida ao meu bem estar.

Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que não desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

Com o meu carinho”!

Vinícius de Moraes