Cartografia Social: Capoeira da Ilha

No ano de 2009, alguns camaradas se reuniram para contar um pouco sobre a Capoeira da Ilha. Tudo foi documentado e organizado pela Japa (Érica), para um projeto da Universidade. Agora já está publicado no site do NUER/UFSC: http://www.nuer.ufsc.br/capoeiradailha.html

Aqui vai um resumo deste trabalho:

Capoeira da Ilha

A capoeira de Florianópolis tem seu início mais significativo a partir da década de 70 com a chegada de Mestre Pop na Ilha e, posteriormente, do Contra-Mestre Alemão e Mestre Calunga. Nas décadas de 80 e 90, a capoeira iniciava seu movimento mais expressivo em Florianópolis, que ganhou força e maior identificação a partir da vinda de vários mestres da Bahia, destancando-se esses pela presença de Mestre Nô do Grupo Capoeira Angola Palmares.

“Tem uma história aí, até os anos 80, que é fundamental pra gente entender a identidade da capoeira, fundamental. A vinda do mestre Pop, o trabalho que ele inaugura, a chegada do Alemão, o Calunga trabalhando junto. E com a chegada do Alemão, todo esse movimento de trazer cabeças, mestres, espíritos, em carne e osso, vindo pra cá, fazer essa troca com a Ilha, Nô, João Pequeno, Curió, Bobó,  enfim, uma série de mestres que estiveram por aqui. Isso aí é a substância, é a base, a essência da capoeira que a gente tem na ilha hoje.” Bagé

O que está em “jogo”, literalmente, é a importância de manter as rodas de rua, que caracteriza a chamada Capoeira da Ilha, onde esses agentes sociais constituem parte do processo de construção da capoeira em Florianópolis.

“(…) E a capoeira que foi forjada aqui, pelos nossos antepassados, que culminou em tudo isso, a capoeira é o que na verdade, é a nossa identidade, nossa cultura. (…) a capoeira é embate ao sistema, a escravidão ta aí… ela não acabou, mudaram o cenário… não tem mais chibata, mas tem, o cara recebe o salário no final do mês mal dá pra pagar o porão (…) Ser capoeirista é ser do contra, é literalmente do contra, aquilo que ta ali já montado, pra nos fazer calar e não ter vez e nem voz.” Mestre Pinóquio

 

Roda da Figueira, jun/09 (Foto: Erika Nakazono)

 “(…) acho que o que mais influenciou essa capoeira é a vinda dos mestres da Bahia, principalmente o mestre Nô, que influenciou muito a nossa capoeira. (…) essa passagem desses mestres por aqui, da gente não ter que nós ir lá na Bahia beber dessa fonte e sim a fonte foi trazida pra gente, essa é uma diferença que foi um marco na capoeira da ilha, um marco, porque a gente nunca ia imaginar que a Bahia vinha pra ilha, naqueles eventos da década de 80… essa história do respeito aos mestres, aquelas figuras, nossa, que ficou assim na nossa memória (…).” Jô Capoeira

 “(Capoeira da Ilha) (…) é o estilo da pessoa, não é capoeira que te molda, não, é a pessoa que se adapta à capoeira, essa é a questão. A nossa aqui, por exemplo, nosso estilo é o estilo de Florianópolis, é o jeito de Florianópolis de cantar, é o jeito de Florianópolis de andar, é o jeito de Florianópolis de levar as coisas, de ter essa tranqüilidade, bem típico daqui, da região, cultural daqui entendeu? A gente teve a influência da nossa cultura aqui, que eu digo nossa porque eu já me considero daqui… a cultura do pescador, da rendeira. (…) eu não tô dizendo no sentido da aplicação dela, mas sim do jeito de você se expressar com ela… a ginga, ela tem um jeito do Mestre Nô, mas cada um ginga de um jeito, ela tem um temperinho do Mestre Nô, um temperinho do Mestre Pop, mas cada um tem o seu tempero, é mais ou menos isso, não é padronizada, não é rotulada.” Mestre Calunga

 “Tudo na capoeira tem que ser conquistado, aos pouquinhos, levei anos pra tocar berimbau no lado do Mestre Pop, do Mestre Braulino então… eu vejo que hoje tá tudo muito assim… todo mundo se atreve a falar de capoeira, todo mundo se atreve pra escrever sobre capoeira.” Jimmy Wall

“(…) a capoeira é do povo, todos os grupos de capoeira deviam ter obrigação de fazer roda, de devolver essa capoeira pro povo, é uma forma de estimular essas pessoas ir fazer a capoeira.” Contra-Mestre Adão

Lei Municipal 7870 de 26 de maio de 2009

“O início de tudo foi quando começamos a ter problemas em realizar nossas rodas de rua, principalmente no Mercado Público. Em maio de 2006 reunimos alguns grupos de Capoeira (Quilombola, Palmares, ABADÁ e Aú) com o apoio da Central e elaboramos o Projeto A cidade na volta ao mundo da capoeira que tinha como objetivo principal assegurar o direito do uso dos espaços púbicos à prática da capoeiragem e outras manifestações culturais. A Lei Municipal 7870 foi uma conquista dos capoeiras, porque encaminhamos este projeto para a Câmara, através do Vereador Marcio de Souza. Esta lei já está beneficiando não só a capoeira mas também outros artistas populares. Temos agora uma lei que nos assegura a produzir cultura no Mercado Público, na Figueira da Praça XV de Novembro, na Esquina Democrática (Calçadão) e no Largo da Catedral. Então, que se jogue capoeira, dance o boi-de-mamão, que se faça renda e se possa admirar o trançar do pau-de-fita, ouvir o toque maracatu e se escute cantigas e outras tantas manifestações.” Central de Capoeira

LADAINHA: NÃO É LUTA DO PATRÃO

“Capoeira, que nasceu pra dizer não… todo tipo de opressão, injustiça e escravidão.

Coro: A capoeira não é luta do patrão

Se liga moço, presta atenção… a capoeira não é luta do patrão,

Herança nobre, legado da escravidão… era luta de oprimidos e excluídos da nação.

Hoje é desporto de regra e competição… eu não concordo com toda essa inversão,

Se liga moço, presta atenção… a capoeira tá no jogo do patrão…(coro),

Não temos escola, nem dentista, educação… a escravidão hoje é feita sem grilhão…nos dão a margem e muita televisão, se liga moço, presta atenção…(coro).

A regional não é isso não é não… eu não concordo com tanta deturpação… Mestre Bimba não dava mata leão, nem dava murro em roda de vadiação… nas emboscadas ensinou jogar facão… mas ensinava o respeito e tradição, se liga moço, presta atenção…(coro).

Cuidado moço, não entregue ao vilão… nossa cultura forjada na escravidão.

Se liga moço, presta atenção… a capoeira não é luta do patrão”.

Mestre Pinóquio

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