Sou Coloninha eu sou…

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Ensaio na Praça XV. Dia 27 de janeiro.

“Sou Coloninha eu sou , uma explosão de amor, canta comunidade guerreira, que a voz do povo não é brincadeira”…

A voz do intérprete a vibrar minha cuíca.

É somente ensaio, mas  a pele arrepia…

Ensaio na Praça XV. Saudade de um carnaval que não volta… De quando era criança e ia com minha mãe para a Praça ver os blocos de sujo. De sentar no meio fio da Francisco Tolentino ver as escolas de samba e os carros das Grandes Sociedades. Não havia violência. Só alegria!

Ensaio na passarela. Oxum nos presenteia com uma chuva suave…

Quanta magia tem o carnaval.

Atraentes as passistas.

Gracioso o bailar da Porta-bandeira e Mestre-sala.

A resistência das baianas.

A pureza das crianças.

Contagiante o pulsar da bateria.

É lindo ver toda uma comunidade amando e doando-se para sua escola…

Sobre Importâncias – Manoel de Barros

“Um fotógrafo-artista me disse uma vez: veja que o pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar.

Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balança nem com barômetro etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga. Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Formula 1.

Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos”.

(Manoel de Barros)

Os Diferentes

Um dia uma grande amiga me dizia que admirava as pessoas que viviam de pernas para o ar… Lendo o livro de Carlos Drummond de Andrade A Cor de Cada Um, encontrei uma pequena crônica que parece ter sido escrito aos capoeiristas. Aqui deixo as palavras deste grande poeta:

“OS DIFERENTES

Descobriu-se na Oceania, mais precisamente na ilha de Ossevaolep, um povo primitivo, que anda de cabeça para baixo e tem vida organizada.

É aparentemente um povo feliz, de cabeça muito sólida e mãos reforçadas. Vendo tudo ao contrário, não perde tempo, entretanto, em refutar a visão normal do mundo. E o que eles dizem com os pés dá impressão de serem coisas aladas, cheias de sabedoria.

Uma comissão de cientistas europeus e americanos estuda a linguagem desses homens e mulheres, não tendo chegado ainda a conclusões publicáveis. Alguns professores tentaram imitar esses nativos e foram recolhidos ao hospital da ilha. Os cabecentes-para-baixo, como foram denominados à falta de melhor classificação, têm vida longa e desconhecem a gripe e a depressão”.

Carlos Drummond de Andrade

 

Fico a pensar o que nos faz capoeirista? Até posso ficar gripada, mas nunca tive depressão…

BANZO…

Segundo AURÉLIO: Banzo: “Nostalgia mortal dos negros da África. ‘Uma moléstia estranha, que é a saudade da pátria, uma espécie de loucura nostálgica’… Triste, abatido, pensativo, pasmado, encafifado”…

Quando por motivos pessoais, familiares me afasto um pouquinho da Capoeira, sofro desta moléstia…

A vida segue, mas a sensação é de que algo está faltando. Um vazio no peito e a grande saudade dos camaradas…

Difícil é entender este sentimento. 

Porquê a Capoeira é tão dominante em nossa vida?