Homenagem ao Maneca!

Quatro de janeiro de mil novecentos e vinte e cinco

TEXTO DE JOAQUIM CORRÊA
*

Diante do notebook, conferindo o resultado da mega sena

 

Nascia o meu pai, Manoel Corrêa, em Itajaí – SC, filho de um estivador e uma dona de casa.

Teve uma infância humilde.

Numa das muitas histórias, com característica riqueza de detalhes, disse ele que meu avô o levou junto com meu Tio Eugênio para visitarem os presos e levar alimentos, jornais, etc… como uma espécie de compensação pela dura vida que os presos levavam. Meu avô, de quem herdei o nome completo, tinha a veia espírita muito latente e insistiu em passar para os filhos a importância de ajudar as pessoas com necessidades.

Num dessas visitas, de carroça, que meu pai classificou como tediosas, porém obrigatórias, no retorno ele e meu tio perceberam que havia uma trilha com balas no trajeto (provavelmente de alguma outra carroça que teve a embalagem rasgada por acidente). Meu pai corria eufórico para disputar cada bala com o irmão. Então meu avô, utilizando toda a sabedoria que a vida de estivador lhe dera, disse: viram ? quando a gente ajuda os outros, sempre vem uma recompensa…

Meu pai fez carreira no banco, começando como contínuo, varrendo a agência e se aposentou como gerente.

Por conta da profissão, acabou morando em diversas cidades do interior catarinense, onde utilizou seus conhecimentos nas rádios, fazendo participações eventuais em programas, bem como em Itajaí fez parceria com nosso querido professor Eurides Antunes Severo.

Fundador do Lions Clube em Florianópolis na década de sessenta, foi um lutador pelas campanhas que esta valorosa instituição empreendeu, seja como sócio, mas também como presidente por algumas gestões.

Me acostumei a andar por nossa cidade e encontrar pessoas que o conheciam e sempre tinham uma palavra de carinho para descrevê-l0.

Apostou na amizade como seu maior valor, afirmando com convicção que “estamos nessa vida para fazer amigos”.

Dono de uma simpatia contagiante, insistia que não importava qual fosse a situação, emocional ou financeira, jamais deveríamos perder a classe.

Foi um mestre do xadrez, disputando partidas nos jogos citadinos. Jogou futebol com os colegas do banco até que teve um fratura na tíbia provocada por um lance bobo.

Nos últimos anos de vida, já com a saúde debilitada, mas com uma lucidez que o fazia lembrar de datas e fatos de forma invejável, contentava-se em curtir a vista do mar que Florianópolis oferecia para renovar as energias.

Seus olhos sempre almejavam algo maior. O espaço. Como brilhavam quando podia ir para frente da casa e vislumbrava as constelações que conhecia como ninguém.

Sonhava que logo teríamos capacidade de viajar pelo espaço como o fazemos com os atuais voos comerciais.

De olho no desenvolvimento tecnológico, me chamava para conversarmos sobre “o que há de novo”?, pergunta constante de alguém que ainda não se contentava com tudo que havia aprendido, tinha sede de conhecimento.

Ao contrário das pessoas com mais de oitenta anos, ele tinha cadastro no orkut, no msn, tinha email do yahoo e habituou-se a conversar com familiares distantes com webcam e microfone.

Quis a vida que nos tornássemos mais próximos e amigos, no final da dele.

Trocávamos idéias e discutíamos posturas como dois velhos conhecidos, nossa diferença de idade sumira.

Mas o respeito mútuo só fez aumentar.

Dono de um discurso correto e inteligente, homenageou muitos amigos e parentes no momento dos seus sepultamentos. Algumas vezes ele me dizia: alguém tem de fazer isso, não podemos apenas silenciar.

No de meu pai não ousei me pronunciar, pois o silêncio respeitoso foi mais eloquente, já que o grande orador estava calado.

Publicado no Blog do Joaquim  http://joaquimsc.wordpress.com/

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